Todos os frequentadores deste blog devem lembrar que em abril (no dia 30), quando estava começando o Campeonato Brasileiro 2004, eu fiz uma série de prognósticos (mais precisamente profecias) sobre esse campeonato.
E prometi que em Dezembro eu iria rever minhas previsões...
Ok, vamos lá...Meus comentários virão com ***************
30 de abril de 2004
O Campeonato Brasileiro 2004 começou.
Agora teremos meses para assistir alguns milionários correndo atrás de uma bola.
Os "especialistas" costumam dizer que esse campeonato é imprevisível, disputado etc...
Contrariando essa tendência resolvi traçar alguns prognósticos para esse campeonato.
(Na verdade o que eu estou fazendo é prever o futuro).
Vamos às previsões...
1) Um time grande (do clube dos 13) vai cair para a segunda divisão, e há grandes probabilidades de ser um time do Rio de Janeiro.
****************O Grêmio caiu, e o Grêmio é um time grande, faz parte do clube dos 13, logo acertei na mosca.
2)Edmundo vai brigar com o técnico, ou com algum jogador de sua equipe, ou algum jogador da equipe adversária ou com a torcida, não importa, ele vai brigar...
****************Outra previsão que deu certo.
3)Vágner Love, atacante do Palmeiras, vai sair à noite, tomar uns gorós, perder partidas e será descoberto, porém ele pedirá perdão e esse perdão será aceito pela torcida.
***************Esta eu errei, o Wagner realmente se arrependeu dos erros do passado, não foi mais visto em baladas (mesmo porque ninguém pode ver, o rapaz está a quilômetros daqui).
4)Flamengo, Vasco e Botafogo farão campanhas medíocres.
***************Certo, acertei em cheio, percebam que eu não incluí o Fluminense, e o mesmo fez uma campanha razoável..
5)Corinthians e Palmeiras nem se fala...
****************é que eu esqueci de terminar a frase...nem se fala...que farão campanhas regulares, era isso...
6)O Figueirense de Santa Catarina estará entre os dez primeiros colocados.
***********Ele está em décimo, e talvez fique por ai...
7)O Paysandu vai cair...
*******Errei, o Papão conseguiu se manter entre os clubes de elite.
8)No meio do campeonato os times venderão seus jogadores para times europeus, o campeonato vai esvaziar e teremos milhares de Ipojucans jogando...
****************Bingo.
9)Alguns técnicos cairão antes da oitava rodada.
**************duplamente bingo.
10)Romário fará alguns gols, porém jogará somente um terço das partidas...
*************Romário, um dos melhores jogadores de todos os tempos, se aposentou este ano, suas belas jogadas e gols memoráveis ficarão para a história.
11)Marcelinho, Viola, e Cia Lmtda... tentarão voltar.
****************Acertei.
12) O Campeão será um time fora do eixo Rio-São Paulo.
****************Errei, tenho certeza de que o Santos será campeão.
Eu achava que o Cruzeiro iria repetir a campanha do ano passado, mas foi tudo ilusão...
13) O Vitória não será campeão.
14)O Goías não será campeão.
15)O Juventude, Atlético Paranaense, Paraná, Coritiba e Santos também não serão campeões.
*************Do 13 ao 15 não são previsões, era só para tirar o sarro mesmo, percebam que na última frase escrevi doze previsões...
Ok, aí estão doze previsões sobre esse campeonato, em Dezembro vou fazer uma avaliação dos meus erros e acertos....
Finalmente, depois de um longo período, os possuidores daquela dor existêncial, dor essa que a moral cristã e todos os livros de auto-ajuda não podem curar, estão retornando das trevas, das monumentais trevas do Não-Ser.
Nestes meses, algumas considerações e pensamentos estiveram pertubando minha mente e exigindo um longo e árduo trabalho de minha medíocre consciência limitada.
Tudo começou, quando eu acordei um dia com uma sensação muito estranha,sensação esta difícil de descrever. Você, caro leitor!!! O que faria se um dia você acordasse e se sentisse um estranho em seu país, ou dentro do seu lar, ou pior, um estranho dentro de si mesmo ?
Se ao acordar, nada mais valesse a pena, nem o amor, nem a ciência, nem a sabedoria,muito menos a religião ou os bons pensamentos, nada, tudo teria perdido o sentido. O mundo para você seria somente um conjunto de interações, ou um agregado de átomos que formam coisas...coisas sem sentido.
Eu tive esta sensação, e algumas das primeiras questões que insurgiram em minha mente, durante este estado foram:
Será que Sócrates realmente mereceu tomar a cicuta ?
Será que um dia o conceito "dor estética" será plenamente compreendido ?
Há dois tipos de felicidade: a verdadeira e a falsa. A verdadeira não existe, a falsa pode durar pra sempre.
Segundo filósofos cristãos, a felicidade só pode ser encontrada ao lado de Deus. Mas isso é muito difícil, pois Jesus já ocupa uma das cadeiras, e dificilmenete nos sairemos melhor que todos esses papas, santos e exegetas por aí. Na verdade, no que concerne à busca da felicidade, as religiões jamais obtiveram resultados satisfatórios. Preferem falar de paz ou bem-aventurança, geralmente através de sacrifícios enormes, e como aquelas palavras são tão ou mais abstratas que felicidade, acaba não valendo a pena.
A ciência também não é o caminho ideal. Além do salário ser mixuruca, as pesquisas a respeito estão paradas desde a introdução do ecstasy e do armário com cabides, e não quero nem saber o que isso significa. Na verdade, o único caminho para a felicidade são os livros de auto-ajuda, mas estes só costumam funcionar para seus autores.
Disso concluímos, portanto, que a história da felicidade é muito triste, e como rói a danada. Mas se conhecê-la não ajuda em muita coisa, pelo menos evita que os corações-moles percam dinheiro demais em caixinhas de natal. posted by cardeal at 6:15 PM
Time and Punishment
"Meu filho, se algum dia você acidentalmente viajar para o passado, lembre-se de não pisar em nada; pois mesmo a menor mudança pode causar enormes diferenças." (conselho de Abraham Simpson a Homer, momentos antes deste se casar)
No próximo, debateremos banheiros. O que são? Para que servem? Constituem os vestiários sua mais baixa expressão? Cantar no banheiro: os males e os benefícios. posted by cardeal at 6:03 PM
Sexta-feira, Setembro 03, 2004
O Filósofo do deserto, o poeta e a Morte.
Nos outros contos, citei várias facetas e características de alguns personagens desta história, tentei esboçar os principais cacoetes e desvios psicológicos de Wander Ground e do homem do capacete amarelo.
Mas, lendo os contos, notamos que um lugar sempre é mencionado, trata-se do GRANDE DESERTO, lar dos loucos e libertos, repouso do Dragão Tu Deves.
O GRANDE DESERTO não é objeto de especulações metafísicas diretas, não há como dizer ou enunciar algo sobre as propriedades e clima deste lugar, só é possível conceber o deserto através de abordagens indiretas.
Este narrador teve uma experiência com este lugar, como ele é fundamental para o desenvolvimento destes contos, vou esboçar a minha visão sobre o deserto.
Numa noite fria, eu estava trancado no meu quarto, totalmente escuro, mórbido e gelado, bebendo doses cavalares de vinho e escutando Joy Division, quando lá pelas 2 horas da manhã, escutei um estranho barulho, desliguei o som e percebi que havia um pequeno facho de luz no canto do quarto.
Olhava fixamente para essa luz, quando de repente ela cresceu, lentamente, tomando conta do quarto, que ficou iluminado, percebi que não era mais meu quarto, estava em outro lugar, via outros móveis e outro quarto.
A primeira coisa que notei foi uma cama, dessas camas velhas, cheias de poeira e deitado nela estava um senhor, já meio velho, com grandes bigodes, testa larga, olhar longíquo e um rosto que revelava que aquele ser tinha sido contemplador de terríveis e estranhos mistérios.
Este senhor parecia delirar, e falava coisas incompreensíveis...
Um pouco longe da cama, em pé, havia uma mulher, toda vestida de preto, de tez pálida, olhar sorumbático, rosto melancólico, os lábios pareciam esboçar um sorriso sarcástico que parecia contrastar com o resto da face, apesar de tudo, era bela, de uma beleza triste, mas era bela.
Eu também escutava uma música inebriante, parecia uma daquelas músicas árabes, harmoniosa e de uma melodia que tocava até aquele coração mais renitente.
Havia ainda uma terceira figura, estava sentada num sofá, era um homem, de aparência comum e trajando roupas sociais, com gravata, terno e calças impecáveis.
Depois de alguns segundos contemplando a cena, a mulher olhou fixamente para mim fez um sinal para eu me aproximar, eu estava confuso, inerte, perdido, e após alguns momentos de letargia resolvi perguntar.
-Quem são vocês ? Que lugar mórbido é este ?
E com uma voz pausada e doce a mulher respondeu;
-Seja Bem-Mal vindo, você está na terra de Ní, meu caro energúmeno, sou a Morte, mors, letum, Death, Thanatos, Muerte...Irmã gêmea da vida, a grande niveladora.
Nesse momento tomei um susto terrível, fiz menção de recuar quando a figura falou novamente.
-Por que me temes ? Amaste minha música e meu aspecto, vi em seus olhos o fascínio perante minha música, estranha bela e harmoniosa música que um dia já foi exaltada por um talentoso e nobre poeta.
Música da Morte
A música da Morte, a nebulosa,
estranha, imensa música sombria,
passa a tremer pela minh'alma e fria
gela, fica a tremer, maravilhosa ...
Onda nervosa e atroz, onda nervosa,
letes sinistro e torvo da agonia,
recresce a lancinante sinfonia
sobe, numa volúpia dolorosa ...
Sobe, recresce, tumultuando e amarga,
tremenda, absurda, imponderada e larga,
de pavores e trevas alucina ...
E alucinando e em trevas delirando,
como um ópio letal, vertiginando,
os meus nervos, letárgica, fascina ...(1)
Porém eu não sou a protagonista desta história, tudo começa com este homem doente, estático, louco, nesta cama vetusta.
Então perguntei quem era aquele homem, e ela respondeu:
-Ele foi o primeiro a pisar no deserto, escalou a grande montanha da existência e lá de cima contemplou o devir, viu o eterno retorno, anunciou o Ubermensch e contou a história das três transmutações e do Grande Dragão Tu Deves...
""“Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança. Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o espírito forte e sólido, respeitável. A força deste espírito está bradando por coisas pesadas, e das mais pesadas. Há o quer que seja pesado? — pergunta o espírito sólido. E ajoelha-se como camelo e quer que o carreguem bem. Que há mais pesado, heróis — pergunta o espírito sólido — a fim de eu o deitar sobre mim, para que a minha forca se recreie? Não será rebaixarmo-nos para o nosso orgulho padecer? Deixar brilhar a nossa loucura para zombarmos da nossa sensatez? Ou será separarmo-nos da nossa causa quando ela celebra a sua vitória? Escalar altos montes para tentar o que nos tenta? Ou será sustentarmo-nos com bolotas e erva do conhecimento e padecer fome na alma por causa da verdade? Ou será estar enfermo e despedir a consoladores e travar amizade com surdos que nunca ouvem o que queremos? Ou será submergirmos-nos em água suja quando é a água da verdade, e não afastarmos de nós as frias rãs e os quentes sapos? Ou será amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma quando nos quer assustar? O espírito sólido sobrecarrega-se de todas estas coisas pesadíssimas; e à semelhança do camelo que corre carregado pelo deserto, assim ele corre pelo seu deserto. No deserto mais solitário, porém, se efetua a segunda transformação: o espírito torna-se leão; quer conquistar a liberdade e ser senhor no seu próprio deserto. Procura então o seu último senhor, quer ser seu inimigo e de seus dias; quer lutar pela vitória com o grande dragão. Qual é o grande dragão a que o espírito já não quer chamar Deus, nem senhor? “Tu deves”, assim se chama o grande dragão; mas o espírito do leão diz: “Eu quero”. O “tu deves” está postado no seu caminho, como animal escamoso de áureo fulgor; e em cada uma das suas escamas brilha em douradas letras: “Tu deves!” Valores milenários brilham nessas escamas, e o mais poderoso de todos os dragões fala assim: “Em mim brilha o valor de todas as coisas”. “Todos os valores foram já criados, e eu sou todos os valores criados. Para o futuro não deve existir o “eu quero!” Assim falou o dragão. Meus irmãos, que falta faz o leão no espírito? Não bastará a besta de carga que abdica e venera? Criar valores novos é coisa que o leão ainda não pode; mas criar uma liberdade para a nova criação, isso pode-o o poder do leão. Para criar a liberdade e um santo NÃO, mesmo perante o dever; para isso, meus irmãos, é preciso o leão. Conquistar o direito de criar novos valores é a mais terrível apropriação aos olhos de um espírito sólido e respeitoso. Para ele isto é uma verdadeira rapina e coisa própria de um animal rapace. Como o mais santo, amou em seu tempo o “tu deves” e agora tem que ver a ilusão e arbitrariedade até no mais santo, a fim de conquistar a liberdade à custa do seu amor. É preciso um leão para esse feito. Dizei-me, porém, irmãos: que poderá a criança fazer que não haja podido fazer o leão? Para que será preciso que o altivo leão se mude em criança? A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação. Sim; para o jogo da criação, meus irmãos, é preciso uma santa afirmação: o espírito quer agora a sua vontade, o que perdeu o mundo quer alcançar o seu mundo. Três transformações do espírito vos mencionei: como o espírito se transformava em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança”. Assim falou Zaratustra. E nesse tempo residia na cidade que se chama “Vaca Malhada”.""(2)
-Este homem viu o deserto e enlouqueceu, todos os escravos, fracos e espíritos gregários acham que ele ficou louco, que sua filosofia o conduziu à loucura, nada mais errado, eu, a MORTE, digo que este homem encontrou sua libertação, entrou no deserto, no Grande Deserto do existir e lá se libertou, lá virou criança, lá riu, brincou, dançou, naquele lugar ele afogou o seu EU.
-Não há castidade no grande deserto, não há fraqueza, não há Bem, não há Mal, a procura do Bem Supremo conduz ao fanatismo e à hipocrisia, a procura do Mal Supremo leva ao sofrimento e ao engano.
Não há amor no grande deserto, há algum sentimento que tenha causado mais sofrimento, brigas e enganos que o Amor...?
Neste momento o homem engravatado, que até então permanecera calado, se mexe no sofá e recita um poema:
Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.
O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!
Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
-- Alavanca desviada do seu fulcro --
E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! (3)
A Morte continuou falando:
-Este homem, nesta cama, significa a força, é um novo profeta, assim como todas as religiões possuem suas imagens e idéias, os fortes e espíritos livres têm nessa imagem terrível seus novos valores, NIETZSCHE CONVALESCENTE, eis o símbolo para as novas gerações...
De repente, escutei um barulho, o homem encima da cama pareceu tossir, e ao mesmo tempo pigarrear e cuspiu algo numa latinha que havia do lado da cama, eu senti nojo, mas a figura engravatada olhou para mim e disse:
-Não sintas nojo pois..."Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao Céu o fumo de um cigarro,
Há mais filosofia neste escarro
Do que em toda a moral do cristianismo".(4)
-Agora chegou a hora de matar suas ilusões...disse a morte para mim.
Então por um momento, vi todos os meus desejos, anseios, amores, consquistas, sofrimentos, ilusões e glórias passarem diante de meus olhos, eles corriam, iam embora, morriam, e eu tentava correr atrás deles, esfarrapado, desesperado, quando num sobressalto fui interrompido e vi um túmulo...
No túmulo estava escrito: Aqui jazem as glórias do narrador...
Neste momento eu acordei, estava de manhã, a luz entrava nas frestas da cortina do meu quarto, percebi que era um sonho, mas ao fundo, bem ao fundo mesmo ainda pude escutar...
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que nesta terra miserável
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa ainda pena a tua chaga,
Apedreja esta mão vil que te afaga,
Escarra nesta boca que te beija! (4)
Notas:
(1) A Música da Morte, Cruz e Sousa.
(2) Assim falou Zaratustra, F. Nietzsche
(3) Idealismo, Augusto dos Anjos.
(4) Versos Íntimos, Augusto dos Anjos.
Mas, morremos, a todo instante morremos. E num único instante, morreremos para sempre. E seremos eternos, eternamente mortos.
"Não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada."
O bom de escrever neste blog é a garantia que haverá leitor, os outros escritores.
Além do mais, por ser um blog composto de amigos, fica mais difícil o brotamento posts histéricos, pois quem o fizer, inevitavelmente, será zoado. Tão zoado quanto alguém que capota de bêbedo, e jogado no chão, acaba se lambuzando no próprio vômito.
Agradeço a todos os demônios pela gentileza de Caronte, lançando neste blog a magnifica poesia dos anjos, néctar supremo das mais altas e das mais profundas inspirações, sem exagero.
Foi sem muita explicação que Curdo do Ceilão, uma homem-bolha-fenomênica, extraiu, do nada, uma fruto tensional, no caso, uma pera. Para melhor ilustrar lembro-vos que, de modo semelhante, do zero brota o 1 e o -1.
Sabe-se que muito tempo atrás, o Curdo de Ceilão vendeu sua alma ao terrível Coala-peixe- pássaro-mutante. Vendeu sua alma em troca da certeza de que sua alma realmente existe. Os mais céticos dizem que há muita inverdade nesta história. Sustentam que foi Lúcifer, fantasiado de Coala-Peixe-Pássaro-Mutante, que compareceu no encontro. O principal argumento é que o CPPM não está nem aí comprar em sair por aí recolhendo ou comprando almas.
Realmente, acredito que CPPM não é uma bolha fenomênica, mas um princípio que sustenta e que possibilita a existência de bolhas fenômenicas, pois em tudo há uma dose de deselegância.
Estou vendo que mais um integrante sentou-se à mesa.
Seja bem vindo grande pulmão.
Beba desta Arnica, cure seus bens e seus males.
Aproveite e quando beber desta arnica, leia o poema abaixo, só para entrar no "espírito" do nosso blog...
Apostrofe à carne
Augusto dos Anjos.
Quando eu pego nas carnes do meu rosto.
Pressinto o fim da orgânica batalha:
— Olhos que o húmus necrófago estraçalha,
Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto...
E o Homem — negro e heteróclito composto,
Onde a alva flama psíquica trabalha,
Desagrega-se e deixa na mortalha
O tacto, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!
Carne, feixe de mônadas bastardas,
Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas,
A dardejar relampejantes brilhos,
Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,
Em tua podridão a herança horrenda,
Que eu tenho de deixar para os meus filhos!
No último conto, conhecemos o grande inimigo de Wander Ground, o homem do capacete amarelo, criação da mente de Ground, que por um milagre do Universo conseguiu se materializar no mundo fenomênico.
Este narrador que vos escreve travou contanto com essa criatura metafísica, pode ouvir suas teorias, delírios e chapações.
Esse encontro é digno de nota, talvez esclareça alguns pontos não compreendidos acerca da psiquê de Wander Ground.
Uma vez estava na praia do Não-Ser, um sol escaldante, o mar estava bravio, belas mulheres bronzeavam-se ao sol e alguns rapazes jogavam futebol de praia.
Foi então que eu o avistei, ele estava ali, sentado na praia, parado, estático, mumificado, pensando profundamente, era velho, com grandes óculos, olhar alucinado, usava um grande capacete amarelo sobre a cabeça, desses que os trabalhadores da construção civil utilizam.
Fiquei olhando para ele, quando de repente como adivinhando meus pensamentos, se levantou e gritou:
-"Eu amo o deserto.
Eu estive no grande deserto da realidade, terrível estar, horrível atravessar, quando acordamos da grande ilusão do Ser, nada encontramos, só caos, loucura, decadência.
O deserto está além dos conceitos humanos, não há mal no deserto, não há bem no deserto, não há fenômeno, não há teoria, não há prática, é o Além-Ser.
Não há oposição no deserto, a vida chama a morte, a morte beija o nascimento, o nascimento assopra a decadência que gera a alegria que pensa na tristeza.
Somente os fortes podem atravessar o grande deserto, e atravessando quem verá ?
Foi no deserto que escrevi um poema dadaísta, segui o conselho dos mestres dessa estética, peguei um jornal, um livro e uma revista, recortei palavras, joguei para o alto e deixei cair no deserto...
Quando vi o resultado EU o chamei PONTE DIALÉTICA.(1)"
Neste momento eu o interpelei, achei estranhas aquelas palavras, pois naquela época eu ainda não conhecia o grande deserto, não tinha a experiência do Além-Ser.
Foi então que o homem amarelo me disse:
-Descobri a verdade, sei de onde viemos, sei quem começou tudo !
Antes que eu pudesse perguntar ele continuou;
-Estava eu andando pelo grande deserto, quando vi um Oásis, chamado Oásis da fraqueza, cheguei nesse Oásis e pude enxergar um enorme e sombrio mausoléu, cheguei mais perto e li o seguinte:
AQUI NESTE LUGAR TERRÍVEL E SOMBRIO APODRECE O CORPO DO GRANDE
"ESCRIVINHADOR", ESCREVEU ESTE MUNDO, MAS ACORDOU, E AGORA VIVE NO TERRÍVEL MUNDO DA GRANDE ILUSÃO, NO MUNDO DO GRANDE SENHOR DÓLAR.
Eu o interrompi , achei aquela história louca demais, imaginei, que o homem estava chapado, mas ele me empurrou e disse;
-"Somos todos resultados da imaginação, somos todos uma grande brincadeira de um depressivo e neurótico estudante, realizando experimentalismos, eu, você narrador, Wander Ground, e todos aqui, somos resultados dos pensamentos sombrios deste ser atormentado, também desenvolvi uma teoria sobre a estrutura de nossa realidade, penso que o nosso mundo seja constituído de partículas que eu chamo letras, e essas letras juntam-se de acordo com determinadas leis para formar frases e dessas frases surge o mundo que habitamos agora."
Eu o interrompi novamente, disse que essa teoria não tinha fundamento, imagine, letras, frases, pensamentos...tudo isso é loucura.
Foi então que eu vi estacionar um caminhão vermelho, dele sairam Wander Ground e dois homens de branco, Ground apontou para o homem do capacete amarelo, os dois homens correram para o homem, mas então ele riu e desapareceu, nada restou, nada vimos, sobrou somente um fiapo de loucura...
(1)A PONTE DIALÉTICA , o poema que o homem amarelo escreveu no deserto é o seguinte.
Loucura, Caos, Depressão, superação, viver, sofrer, repreender, babar, Capital, descapitaliza, Schopenhauer, que implica, resolve,
pensa, rebate, buuummm, acabou, chorou, escapou, repreendeu...
morreu
i
g
r
o
umido, feliz, alegria, amor, tranquilidade, rapidez, reflexão, = recapitaliza, repensa, implica, prisão, salpica, vence corre,
socorreu
a
l
t
avenida, castidade, luxúria, oposição, antítese, contrários...
EQUAÇÕES VITAIS;
VIDA= [MORTE + (ILUSÃO)*(CAOS)]- ETERNO RETORNO
FELICIDADE = 1/(TRISTEZA)
scanf("%",&morbidez).
ACABOU..
SUMIU
SUMI
SUM = SOU.
fim = começo...
Dedico essa notícia a todos aqueles que sempre riram quando eu dizia que o futuro seria sombrio, terrível, caótico e medíocre (uma mistura de 1984 o filme com Admirável Mundo Novo).
Basta dar uma olhada abaixo, isto é o prelúdio do amanhã !
Onde estará o grande Dragão dos Valores TU DEVES, cujas escamas refletiam valores milenares ?
Onde estará o camelo, o leão e a criança ?
Onde estará Zaratustra, o filósofo do além-do-homem, o mestre do eterno retorno ?
Onde estará aquele brilhante filósofo, que filosofava com o martelo ?
Sumiram, foram tragados por um deus verde, com números que chama pelo nome de PECUNIA.
Literalmente viraram CEREAL !
"Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao Céu o fumo de um cigarro,
Há mais filosofia neste escarro
Do que em toda a moral do cristianismo!"
Augusto dos Anjos
Há várias formas de se apresentar um personagem, uma delas é a forma direta e descritiva, em que o autor vai revelando e descrevendo numa só tacada todas as características do personagem, outra é ir apresentando o personagem aos poucos, revelando paulatinamente suas facetas.
O personagem em questão é Wander Ground, com os curtos contos esboçados pretendo revelar suas características psicológicas, neuroses, patologias...
Uma das facetas emblemáticas de Ground é a total crença no fantástico e uma séria suspeita de que a realidade seja uma grande piada, seja uma espécie de filme em tom bufo.
Neste conto, vou narrar um delírio de Wander Ground.
Nosso herói em questão, delirava que estava em um grande, escuro e frio deserto com areias multicoloridas, camelos com cem corcovas, beduínos bêbados a cantar canções estranhas e terríveis, filósofos loucos a formular hipóteses absurdas, regadas com lisérgicas bebidas profanas, finalmente Wander Ground percebeu...ele estava no grande deserto da realidade, havia acordado da grande ilusão e finalmente entendeu que quando acordamos vemos somente um deserto conceitual, absurdo e ilógico, vemos o caos e a decadência, a loucura e a máscara.
Após horas caminhando ele vê um grande palácio, belo palácio, com torres enormes, portas imensas, muros intransponíveis...
Então Ground ousou entrar nesse castelo, e dentro pode observar um estátua enorme; uma mulher cercada de serpentes, búfalos e dragões.
No rosto dessa mulher, havia uma máscara, uma medonha e sepulcral máscara...
Embaixo da estátua estava escrito;
"EU SOU A LOUCURA, PESADELO DA RAZÃO, JUÍZA DOS HOMENS, AXIOMA DE TODAS AS FILOSOFIAS, NENHUM SER JAMAIS FOI CAPAZ DE RETIRAR MINHA MÁSCARA"
Porém haviam algumas letras menores, que Ground teve que se esforçar para ler, e nela estava escrito;
"favor não retirar a máscara da estátua, sujeito à multa"
E aqui o leitor vai conhecer uma das manias de Ground, sua grande curiosidade, ele não resistiu, subiu na estátua e retirou a máscara, nesse momento, tudo ficou escuro, Ground não conseguia ver nada...ficou horas nesse estado sombrio, desesperado, nada mais existia, somente um ponto e este ponto era sua consciência.
Mas, horas depois, ele consegue ver uma pequena luz, e essa luz começa a crescer, até ficar enorme e quase suprimir aquela escuridão.
No meio da luz ele consegue ver um homem,com uma feição serena, sóbria e que inspirava respeito, Grownd tremendo perguntou; Quem tu és homem luminoso !? E a figura responde: "Sou Aristóteles, o filósofo". Nesse momento Grownd teve um espasmo, delirou dentro do delírio, enlouqueceu, se alegrou e então gritou; Oh, Aristóteles, mestre do ocidente, filósofo dos filósofos, pensador por excelência, vós viestes para ensinar-me as grandes verdades, os grandes silogismos e os segredos da Ética.
Então Aristóteles responde; Não, vim simplesmente cobrar a multa, por você ter retirado a máscara de seu lugar.
Neste momento Aristóteles soltou uma grande risada, e então uma transformação se deu em seu ser,ele começou a mudar, ficava mais velho, com um olhar de louco, atrás de um óculos metafísico e então Ground pode notar um grande capacete (eu disse capacete) amarelo na cabeça daquele ser...
Ground acordou de seu delírio, descobriu que havia um outro ser dentro de sua consciência e a partir daquele momento descobriu seu grande inimigo, seu alter ego maléfico, sua sombra...O HOMEM DO CAPACETE (eu disse capacete) AMARELO...
"Ou se vive pelo amor, ou pelo medo." Lembrou da frase lida de passagem num livro de hipnotismo, num sebo. E logo em seguida lembrou-se também de um tempo intermediário entre a educação no isolamento e o tombo na vida da cidade, insípida.
Ria-se. Conhecia melhor do que se imaginava essas rotas de deleite, o amor. Uns lagos de águas fundas e paradas, flutuando em si mesmas. O sangue correndo vivo por leitos macios, de carne. E o sol se cravando no poente, ao fim de tudo; o céu vazio cravado de estrelas, depois.
El Pablito, junto a Urrutia, e um russo em la Côte d'Azur - um resumo desse estado. Ou, mais provavelmente, um extremo idealizado desse estado.
Alice vivia agora totalmente isolada de seu passado. Aconteceu de fato um corte, que desenlaçou o rumo passado e o vindouro; pra trás ficou uma terra meio encantada, meio invisível. Passou por lugares que já não existiam.
Riu-se, de novo. Um palácio estrangulado de cores, a vida; um templo vazio, com raios se partindo em vitrais, em distorções calculadas. E a vontade noturna de dedos, de olhos, de cheiros. E as esculturas de formas para todos os outros inacessíveis.
Queria dar coesão a caminhos julgados contraditórios. "Há sempre no amor um desejo de arremessar-se em correntezas, nunca se pensa em domar esse rumo. Há sempre no pensamento um vício de distanciar-se das coisas vivas, de fechar-se num templo. Há sempre no prazer uma entrega a forças alheias e violentas."
Mas num estalo, julgou absurdo tudo em que estava pensando, e se levantou; saiu. E riu-se de novo, mas dessa vez meio aborrecida. Sentia que lidava com coisas reais, mas se pareciam muito com os delírios dos outros.